A neurose obsessiva e sua dinâmica afetiva: uma análise em narrativas literárias. Parte 01




A partir desse momento passaremos a publicar uma série de textos relativos ä temática da neurose obsessiva, por meio do personagem Agilulfo e de suas aventuras. Através desse personagem descrito na obra O cavaleiro Inexistente de Italo Calvino, poderemos compreender melhor a dinâmica afetiva do personagem. A seguir apresentaremos outro personagem, desta vez do Romance Duas damas bem comportadas de Jaine Bowles, tradução de Lya Luft, onde veremos a personagem da senhorita Goering, imersa na Neurose obsessiva feminina.

Voltando a Agilulfo, a fim de apresentar o cavaleiro Inexistente, da forma como concerne o termo, Calvino(2001) esclarece que Agilulfo surge em meio ä tropa do rei Carlos Magno, da França. O chefe maior daquela nação, como de costume, passava no meio da tropa de seu exército para uma revista corriqueira, porem parava diante do cavaleiro e o examinava de alto a baixo e pedia que o paladino "soldado" se identificasse. Assim ocorreram várias e várias vezes, mas, em certo momento, o rei parou diante de um soldado com uma aparência diferenciada dos demais. Eis que surge, Agilulfo, o cavaleiro Inexistente.

Assim passa a existir a "perfeição", o cavaleiro cuja a apresentação por ela mesma, já se mostra oponente: seu nome de composto inúmeros nomes (Agilulfo Emo Bertrandino dos Guildiverni e dos Altri de Corbentraz e Sura, Cavaleiro de Selimpia Citeriore e Fez). É um modelo de soldado, antipático a todos, contudo é o que sempre segue as regras em suas minúcias e exigindo o mesmo de todos os que estão à sua volta.

Sua onipotência prolonga-se em seus trajes perfeitos, como exemplo, uma armadura toda alva, toda reluzente de tão branca, com apenas um detalhe negro, que fazia a volta pelas bordas, cuidada com esmero, da forma imaculada. A articulação da armadura primava em perfeição. O seu elmo (capacete) ostentava um penacho, que reluzia o arco íris com todas as suas cores. Não se sabia ao mesmo de que ave partencia tanta perfeição de penas. Seu escudo exibia um brasão entre duas franjas de um manto drapejado de maneira harmoniosa. Já no interior desse, havia dois outros panos e, no meio destes um brasão menor, que continha mais um brasão, amantado ainda menor, de forma minuciosa, que ao menos dava para discernir qual era o desenho de tão miúdo e minucioso em detalhes, beirando a perfeição em arte.

De acordo com Calvino (2001), o escudo de Agilulfo era uma obra de arte que beirava a perfeição de tantas minúcias e riquezas de detalhes, assim com o resto da sua indumentária, que se destacava na multidão de outras iguais e completamente diferentes (iguais no sentido de que eram todas armaduras, porém diferente na forma estética, diferente no zelo e preservação). Permanece, todavia, apenas como indumentária, porque no seu interior não existe carne, sangue ou algo parecido, apenas uma vida mantida pela força de vontade e pela fe na santa causa. Causa defendida com vigor em cumprir o próprio dever junto aos outros. Agilulfo , porém mantém-se isolado.

Nem mesmo no momento de descanso física e mental, Agilulfo fazia parte de seu grupo. Ao chegarem no acampamento, os outros paladinos reuniam-se para brincadeiras e bravatas diversas. Agilulfo tentativa aproxima-se, até chegava perto, mas era em vão, porque não conseguia se relacionar com os demais de maneira afetiva, nem mesmo manter um relacionamento de companheiros de jornada. Os outros paladinos, por sua vez, também não faziam questão da sua presença por sua rigidez e altivez. Em consequência, cabia a Agilulfo a insólita solidão e o vazio da Alma, "se é que ele existe", nem ao menos se permitia uma noite de sono.

O cavaleiro que beirava a perfeição não se dava o direito de ser somente um mortal no mundo do sono. Enquanto os demais paladinos dormiam, Agilulfo lustrava sua espada, engraxava as juntas de sua armadura branca completamente equipada, em uma busca recorrente de perfeição. O cavaleiro que possui apenas pensamentos racionais e determinados de maneira exata não conseguia, ao menos, passar a noite em sua tenda. Aproveitava seu tempo lucidamente andando e verificando, os demais, de forma critica. Ele não conseguia entender como aqueles paladinos podiam fechar os olhos e se permitir permanecer no nível de inconsciência e afundar-se no vazio, durante o sono profundo. Questionava como podiam os paladinos dormir horas e horas e, ao despertar, descobrir-se igual a antes, juntando fios da própria vida, recomeçando, juntando a própria carne ao meio do cheiro forte de morte e vinho bebido. O cavaleiro inquietava-se diante dessa situação, não concebia como inveja seus sentimentos, porém se sentia mal em ver aqueles corpos estirados em meio as tendas, com dedões aparecendo, pés sem botas e corpos verdadeiramente carnais. A ambivalência permeava a vida de Agilulfo. Assim, ao mesmo tempo que sentia algo semelhante a inveja, experimentava igualmente um orgulho, desdenhoso de superioridade... Continua na próxima publicação.

Bibliografia -
Cury, Eli Antônio (2012) A neurose obsessiva e sua dinâmica afetiva: uma análise em narrativas de Calvino e Bowles, dissertação de mestrado apresentada à PUC-RS. P. 42 - 44.

Calvino, I. O cavaleiro inexistente. Trad. N. Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 1933.

Bowles, J. Duas damas bem comportadas. Trad. Lya Luft. Porto Alegre: LPM, 1984.

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Texto editado e publicado por: Eli Antônio Cury e Alessandro Borges

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