A neurose obsessiva e sua dinâmica afetiva: uma análise em narrativas literárias. Parte 03

  • segunda-feira, novembro 05, 2018
  • por Alessandro Borges
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O rei, os oficiais e paladinos, em uma longa caminhada, passaram em uma aldeia e depararam com individuo que estava em meio aos patos, de quatro patas (agachado com as mãos no chão), comportando-se como se fosse um deles. Então, Carlos Magno questiona, sobre o que se passava com esse ciadão. uma aldeã responde, em alto e bom som: "Um que grune igual a um pato acha-se um também". Um velho hoteleiro, por sua vez, responde, que esse homem ( pato), as vezes, não percebe que faz parte do mundo dos homens, e acredita pertencer ao mundo inanimado ou irracional.

  O rei indaga: - "O que falta na cabeça daquele louco? O que sai de sua mioleira?!" O horteleiro, por sua vez, lhe dá a resposta, dizendo acreditar que talvez esse nome, louco, não fosse adequado, mas, sim, alguém que simplesmente não possui consciência de sua existência. Carlos Magno, por seu turno reflete sobre o que ouviu e admite que por certo o velho e sábio horteleiro possa estar mesmo correto, já que, entre os seus mais importantes oficiais, encontra-se um que possui consciência de existir mas, de fato, não existe (CALVINO, 2001).

  Pode-se compreender, então, que cada um desses dois homens permaneça em um mundo criado com base em sua mente, sana ou talvez insana, porém imersos em suas criações, verdades, fantasias, mitos e ate mesmo nos ritos que os salvam da própria loucura ou da loucura alheia. Não existindo o homem, esse pode ser o que quiser, homem, mulher, fantasia, imaginação, o que vai determinar será a ordem do molde e o desejo latente em seu cerne.

De acordo com Calvino (2001), o molde determinado pelo vazio da existência de Agilulfo, nem ao menos, lhe permite sentir o gosto, cheiro e o gozo de ter uma vida inexistente. Com sua frieza racional, Agilulfo faz revistas para ver se os demais cumprem o dever, assim como deve fazê-lo. Passa pelas varias cozinhas, onde preparam a comida dos soldados, porém permanece indiferente ao cheiro de repolho ou podridos dos corpos sujos e mal cheirosos dos que preparam a dita refeição. Rambaldo avista o oficial paladino de longe e continua a observá-lo, desejando ser igual a esse que ostenta tantas bravuras em nome da santa causa. Aproxima-se, relata o desejo de ser um paladino tão bom quanto o Agilulfo. Este, por sua vez, se irrita por ser interrompido no cumprimento de sua missão. (CALVINO,2001).

  Agilulfo se enraivece por não prever ou controlar a atitude de Rambaldo, logo ele que prima pelo controle a qualquer custo. Faz inúmeras listas de atividades para diversos paladinos e os fiscaliza para ver se cumprem à risca o seu dever. As listas permanecem em vários departamentos. Fazem-se listas dos pobres, das funções, comidas e de tudo que ele acredita poder fiscalizar e controlar. Também o faz, em sua pobre existência, de falta de carcaça pútrida de carne e alma, controlando todos os passos e pensamentos. Permanece sempre intocável com a vulgaridade alheia.

 Calvino (2001) afirma que o controle excessivo pode gerar uma ausência de afetividade, perante a vida alheia. Assim sendo, mesmo admirado por seu esmero, ordem, regularidade, virtuosidade, mas frio e distante. Agilulfo mantém-se no limbo da frieza eterna de sentimentos e fervorosos de alma. Ainda assim, provoca medo pela sua inexistência, apesar de ser o melhor no gabarito de perfeição. Ele só alcança tal excelência pela sua inexistência, haja vista que, para ser apenas um paladino humano, deveria permear o umbral (erros, falhas, imperfeições) dos homens, cheios de amor e ódio, vida, sangue, calor e dor.

 A insanidade controla com fervor os pensamentos de Agilulfo, não permitindo ao menos, que ele sinta o cheiro, sabor e o deleite do prazer em devorar a comida posta à mesa. De acordo com Calvino (2001), esse personagem participa dos banquetes oferecidos ao rei, de forma ausente. Pede sempre, de forma minuciosa, uma diversidade de pratos, um para cada tipo de alimento. Os talheres devem atender às especificações necessárias e ele os organiza e reorganiza. É sempre servido de alimentos pelos criados, porém ele corta e recorta cada um de forma cuidadosa. Passa de um prato para o outro o alimento cortado, pratica um verdadeiro cerimonial em divisões. Separa os pedaços dos menores aos maiores, em diversos tamanhos e os coloca em pratos diferentes, até chegar ao último prato. Dessa forma, após uso do último prato, ele o devolve para os criados, fazendo o mesmo com o precioso vinho da Borgonha. Pede várias taças  e quando servido em uma delas, divide-o em diversas, colocando um pouquinho em cada uma, repetindo de forma precisa o ritual. Ao chegar à última taça, as devolve aos criados. Assim faz, enquanto dura o banquete. Dessa maneira, Agilulfo mantém o gozo nele mesmo, não por devorar os alimentos, mas por praticar o ritual preciso e de forma recorrente.

 Conforme Calvino (2001), Agilulfo é às vezes questionado sobre a preocupação com as riquezas de detalhes. Um de seus comandados, Ulivieri, sinaliza que a glória nela mesma já é genuína, permanece na memória do povo, apenas pelo feito, portanto não precisa de comprovantes. Agilulfo relata, porém, que tudo que faz possui presteza e riqueza em detalhes, controle e sinaliza a necessidade da existência de documentos irrefutáveis! Cada título que o cavaleiro Agilulfo galgou foi por meio de ações planejadas, analisadas e executadas de forma racional, desse modo, mantém o controle absoluto das ações. Pondera, entretanto, que o seu controle excessivo em fiscalizar os feitos dos demais não é um domínio, mas, sim, zelo em explicar fatos com lugares, datas e com grande quantidade de provas, evidenciando-as para a execução do julgamento. Contudo, o cavaleiro destaca que essa não é uma forma de ofender, mas um meio de explicar mediante evidências e, dessa forma, levantar a necessidade de maior perícia e precisão nos serviços alheios, nem que para essa exímia precisão o paladino deva passar horas e horas, praticando, de forma recorrente a obrigação, para alcançar a excelência.

 O controle e a excelência em tudo que faz permeiam, também, os momentos em que Agilulfo poderia se permitir sentir o prazer e a luxúria da carne. Ao contrário, porém, por meio de seu excelente controle e ritos recorrentes, faz que a orgia da noite não ocorra da forma como os outros homem de carne e desejo, o faria.

 Em sua jornada, o oficial depara com uma donzela em busca  de socorro para a sua senhora e as diversas amas dessa. Como não se permite recuar de cumprir uma missão, Agilulfo aceita o desafio e parte para o castelo onde está a viúva "Priscila". As mulheres do castelo estão acuadas por inúmeros ursos selvagens, que, com vigor, as querem devorar. Agilulfo, contudo é avisado por um velho eremita, de que tal feito (a busca por socorro) não passa de uma armadilha, para transformar o salvador dessas mulheres em um igual a ele, um eremita; haja vista que ele também já exerceu esse papel de salvar essas mulheres. O paladino, entretanto, se recusa a furtar de cumprir essa missão e vai ao castelo, onde corpos perfeitos, rostos bem feitos, cheiro de carne o esperam.

 Agilulfo, forte, guerreiro, opulento e excelente em tudo o que faz, luta com os ursos e os tranforma em apenas pedaços de carne, pútrida e peluda na ponta de sua lança. Dessa forma, ele os faz desaparecer, alguns morrem e os demais fogem diante do bravo oficial. No pós luta, Agilulfo é recebido por diversas mulheres, incluindo Priscila, a que mantém o controle das demais. Ela lhe oferece como recompensa um banquete em que seu corpo faz parte da iguaria. O cavaleiro diante de um corpo perfeito e desnudo, para o seu degustar e devaneios, transforma esse momento em uma orgia de excelência em palavras. Ele pratica de modo incessante o gozo pelo que é perfeito, elaborando uma verdadeira dissertação sobre o amor, o que deixa a mulher em êxtase. Não se sabe se de prazer ou saber ou apenas pela conjunção de ambos (beirando o prazer carnal). O oficial paladino continua sua perícia em organizações diversas, como, por exemplo: praticam juntos o ritual e cerimonial de arrumar uma cama perfeita, que de tão perfeita não se sabe onde começa o colchão e onde terminam os lençóis obsessivamente esticados. O êxtase de prazer continua por toda a noite. Agilulfo, com um toque (Mão enluvada com aço) suave e leve, passeia pelas plumas dos cabelos da mulher e o faz novamente com precisão, beirando a perfeição, como parte final do desbravamento do corpo desnudo. Prossegue elaborando um belo penteado, que a faz se sentir a mais bela, ou seja, o dia em que se viu em uma beleza absoluta. Por fim, pratica a noite de amor, apenas permanecendo à distância dos corpos e por meio dos ritos, como uma dança macabra de prazer e desprazer, o gozo nele mesmo.

   Por fim ele, com sua destreza magistral, consegue embebedar a mulher, remetendo-a a seu mundo de inexistência. Ao cair da noite, ela continua embriagada com as praticas de rituais e controle do cavaleiro que o faz por meio da inteligência. De tão confusa, não sabe ao menos o que se passou naquela noite. Recorda-se somente que teve uma noite perfeita de prazer, sem carne, corpo, coito, mas não se lembra como ocorreu o prazer. Agilulfo raptou Priscila para dentro de seu próprio devaneio, para o limbo de sua perfeição. Ela se encanta com tanto esmero sem oferecer resistência ao vigor que a carne, sangue, vísceras e alma lhe concedem.

  Agilulfo, em suma, não se entrega a uma mulher que claramente o deseja. Dela acaba não recebendo nada e, em decorrência, não tem  de doar-se, pois, assim, não se permite correr qualquer risco afetivo, ao ter uma vivência humana, afetiva e carnal. Ele se mantém seguro em uma espécie de “torre de marfim” onde não se expõe ao perigo de ser rejeitado, recusado, criticado e o que é ainda mais interessante: ser exposto a qualquer avaliação. Fora do risco, não vive a possibilidade de que advenha sobre ele a  iminência da aceitação ou rejeição sexual e afetiva. O cavaleiro inexistente permanece em um profundo amor narcisista, portanto, a relação não se inicia de maneira que, em consequência dela, o cavaleiro não venha a ter seu narcisismo ferido mediante a existência do outro em sua vida.

  Em resumo, de que trata esta obra de Calvino? Agilulfo e seu escudeiro Gurdulu são atraídos para um castelo que supostamente estaria sendo atacado por ursos. Uma donzela aparece em trapos, na estrada pela qual cavalgam, clama socorro por ela e pelas outras mulheres que também habitam o mesmo castelo onde vivem. Neste castelo, moram apenas mulheres indefesas, portanto necessitam de proteção. Agilulfo prontifica-se para o ataque e, em seu trajeto, encontra um estranho eremita a dizer que também já tentou salvar (e o conseguiu) aquelas mulheres de outro perigo. O que o eremita revela é o seguinte: “eu também fui cavaleiro como você, cumpri minha missão e como premio, fui parar nos braços e na cama da castelã. Após essa noite de amor, transformei-me num eremita. Desde então, encontro-me vagando nestas terras.” Ora, o aviso dado a Agilulfo é que o mesmo recairia sobre ele, caso se entregasse à castelã, devido ao sucesso de sua força contra a ameaça dos ursos. O eremita questiona:- “Não teme as chamas da luxúria?” Agilulfo se embaraça e dá uma resposta evasiva – “Bem, depois veremos...” (CALVINO, 2001,p.87). Finalmente o cavaleiro obtém êxito e, após um belo jantar na companhia da castelã, é encaminhado ao quarto desta.

  Nesta passagem da história, encotra-se um ponto chave sobre o qual se pretende discorrer neste estudo, e para o qual se voltará a atenção. Tudo nasce, no cavaleiro, da impossibilidade do encontro. Sua tagarelice o afasta da bela mulher ou de quem quer que seja. Ele nada concede  de si mesmo, alem do vazio de uma discursividade obsessiva. Não receber o desejo da mulher, o que ela almeja lhe dar, é não entregar tudo que lhe resta: o vazio. A revelação da existência deste vácuo é evitada por meio de quem parece entender de tudo, até de amor, mas não consegue objetivar nenhum aspecto de algum entendimento ou desentendimento sobre qual assunto seja. Suas palavras simplesmente circulam o seu nada, para melhor escamoteá-lo. A dama se embevece com tantas alusões culturais contidas em tal discurso, sem perceber que é uma arma de fuga para estar longe dela, utilizada intensa e constantemente pelo cavaleiro. Ele se refere a tudo a sua volta e ao que diga respeito à beleza da mulher com que dialoga solitariamente. Cria uma espiral de referências, lembranças, galanteios, citações eruditas tão difusas e sem aprofundamento, de modo que todas as falas são breves menções aos assuntos que se apresentam em uma torrente, fazendo que a dama, na manhã seguinte, nem saiba narrar o que ocorreu na noite anterior...


Bibliografia -
Cury, Eli Antônio (2012) A neurose obsessiva e sua dinâmica afetiva: uma análise em narrativas de Calvino e Bowles, dissertação de mestrado apresentada à PUC-RS. P. 42 - 44.

Calvino, I. O cavaleiro inexistente. Trad. N. Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 1933.


Bowles, J. Duas damas bem comportadas. Trad. Lya Luft. Porto Alegre: LPM, 1984.

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Texto editado e publicado por: Eli Antônio Cury e Alessandro Borges


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